Uma pergunta frequente que os pais se fazem é se devem deixar o bebê chorando ou se devem pegá-lo no colo? Existem mitos a respeito de se pegar um bebê que chora, no colo. Se pegar no colo, ele só vai querer o colo. Vai ficar mimado. O bebê precisa aprender, desde cedo, que não pode ter tudo que quer. Pior do que os mitos são algumas publicações que estimulam categoricamente os pais a deixarem seus filhos chorando, principalmente à noite, para que aprendam a dormir. Pessoalmente considero essa orientação absurda e prejudicial ao bom desenvolvimento da criança. Bebês que choram querem e precisam do colo. Nenhum colo dado com carinho e amor será prejudicial, tornará a criança uma tirana ou a transformará em mimada.
Para responder à pergunta se devo deixar meu bebê chorar, pedi à Dra. Eliane Volchan, professora no Laboratório de Neurobiologia do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho daUniversidade Federal do Rio de Janeiro que escrevesse um pequeno texto. A seguir, o texto da Dra. Eliane, que dá embasamento científico ao que nós humanos já sabíamos através da emoção.
O Choro do bebê- Dra. Eliane Volchan
Existe uma EXTENSA literatura científica sobre a vocalização de filhotes de várias espécies de mamíferos quando separados de suas mães ou de seu grupo, incluindo as regiões cerebrais envolvidas nesse comportamento (veja lista abaixo). Os filhotes tem um sistema de alarme não-aprendido que se manifesta bem cedo e sinaliza sempre que eles se separam dos adultos, enquanto que os adultos do grupo são extremamente sensíveis a esses sinais. Se assim não fosse, nossa espécie (e a de outros mamíferos) não teria sobrevivido, pois o maior risco à nossa sobrevivência é ficarmos sozinhos (particularmente as crianças)!
Recentemente, estudos mostraram em HUMANOS, que a dor da separação ativa as mesmas áreas cerebrais da dor física. Esses resultados levaram os autores a especular que a separação social equivale à dor física na sinalização de alarme para uma situação premente de perigo. Ou seja, os achados CIENTÍFICOS corroboram o bom senso demonstrando que, quando um bebê chora ao perceber sinais de separação (ausência de contato visual, auditivo e principalmente somático: contato físico corpo a corpo), seu cérebro está acionando o recurso máximo de alarme para uma ameaça à sua sobrevivência. Do mesmo modo, os adultos mais próximos são sensíveis a essa vocalização que provoca atitudes de socorrer e confortar bebê trazendo-o para perto de si e embalando-o. A proposta de reprimir o impulso de pegar a criança no colo é, assim, absurda, pois viola umas das nossas reações mais básicas e fundamentais da nossa herança evolutiva.
Referencias:
– Eisenberger NI, Lieberman MD. (2004) Why rejection hurts: a common neural alarm system for physical and social pain. Trends Cogn Sci., 8: 294-300
– Eisenberger, N.I. et al. (2003) Does rejection hurt: an fMRI study of social exclusion. Science 302, 290-292
– Kirzinger, A. and Jurgens, U. (1982) Cortical lesion effects and vocalization in the squirrel monkey. Brain Res. 233, 299-315
– Krossa et al (2011). Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proceedings of the National Academy of Sciences 108: 6270–6275
– Lorberbaum, J.P. et al. (1999) Feasibility of using fMRI to study mothers responding to infant cries. Depress. Anxiety 10, 99-104
– MacLean, P.D. and Newman, J.D. (1988) Role of midline frontolimbic cortex in production of the isolation call of squirrel monkeys. Brain Res. 45, 111-123
– Robinson, B.W. (1967) Vocalization evoked from forebrain in Macaca mulatta. Physiol. Behav. 2, 345-354
– Stamm, J.S. (1955) The function of the medial cerebral cortex in maternal behavior of rats. J. Comp. Physiol. Psychol. 47: 21-27
Na próxima vez que o seu bebê chorar, pegue-o no colo e sinta que ambos estão felizes. Se alguém lhe disser alguma das barbaridades que são ditas por aí, repasse o texto da Dra. Eliane Volchan.
Gostaria de ouvir comentários dos pais a respeito de coisas que já ouviram com relação ao choro dos bebês. Se tiverem alguma dúvida, enviem que eu tentarei respondê-la.