guilhermedealmeida-toribaPensei muito sobre o que escrever no dia da criança. Pensei tanto, que acabei não escrevendo nada, no dia. Como estou convencido de que as crianças, espontaneamente, sabem que todos os dias é dia delas e, por outro lado, os pais também percebem isso pelo cuidar diário que elas precisam, acredito ser pouco importante não ter escrito um post exatamente no dia 12 de outubro.

Mas, há um segundo motivo pelo qual não escrevi no dia 12. Apesar de ser um sábado, foi um dia bastante movimentado. Fui ao consultório pela manhã, cedo, ver crianças que não poderiam esperar. De lá, fui a uma festa para celebrar a Lina, uma linda menina de 6 meses. Deste almoço fui direto para um plantão e, assim, lá se foi o dia 12, sem post!

Essa introdução, cheia de justificativas, é para chegar onde eu queria. Ou melhor, onde eu ainda hesitei um pouco. Me deu vontade de escrever um post mais pessoal e me perguntei se quem lê o blog de um pediatra que escreve sobre crianças teria algum interesse nas suas memórias e lembranças. Decidi, ainda que sem consultar os leitores, escrever sobre emoções da minha juventude.

Domingo, dia 13, chego ao Hotel Toriba, em Campos do Jordão. Aqui passei férias de julho dos 12 aos 17 anos, com meus pais e irmãos. Guardava, desse tempo, lembranças deliciosas. A viagem começava a ficar boa, quando chegávamos em Pindamonhangaba, para colocar o carro em cima de um trem, chamado gôndola. Na estação de Pinda, pintada numa das paredes, uma frase que me marcaria para a vida: antes da hora, não é hora; depois da hora, não é hora. Hora é hora! E lá íamos nós, meus pais e seus cinco filhos, do lado de fora do carro, sentindo o vento no rosto, subindo a serra. Mas, nossa primeira vinda a Campos do Jordão foi muito menos traquila. Vinhamos de São Paulo e meu pai errou a entrada em S. J. dos Campos. Entramos por Pinda e, a bordo de um Simca Jangada, meu pai pegou a estrada de terra que subia para Campos. Não era uma estrada usada e tivemos que saltar do carro, algumas vezes, para ajudar a empurrá-lo. Imagino o “sufoco” dos meus pais com cinco crianças pequenas a bordo. Finalmente chegamos em algo civilizado e meu pai perguntou a uma pessoa que estava na porteira: “onde é o Toriba?”. Aqui, foi a resposta. Alívio geral. Depois, ninguém acreditava quando meus contavam que tinham subido pela estrada de Pinda. Mas, a lembrança mais intensa, talvez, era a da liberdade. Pode andar “solto”, correndo com os amigos recém feitos e outros já conhecidos de outras férias, era uma sensação incrível. Andávamos a cavalo, uns pangarés alugados pelo Sr. Simplício, sempre com a emocionante galopada que todo pangaré dá, quando volta para casa. Minha mãe, uma mulher muito rígida para algumas coisas, era flexível para outras. Assim, ainda sem carteira de habilitação, me deixava dirigir. Qual adolescente não acha o máximo dirigir? De início, acompanhado por ela, depois sozinho! Ia e vinha do Toriba a Capivari, várias vezes ao dia. Outros tempos, menos carros, nenhum trânsito. Mas, de toda forma, uma certa irresponsabilidade da minha mãe, que eu até hoje agradeço que tenha tido! Perto do Toriba, uma colônia de férias chamada Pumas. Lá tive um alumbramento por uma das monitoras. Como não lembrar de um encantamento juvenil? No Toriba, um esocorrega de madeira levava do térreo a um subsolo que servia de sala de jogos para as crianças, em dias de chuva ou à noite. Uma farra descer nesse escorrega que, como posso constatar no livro de ouro dos 70 anos do Toriba, faz parte das lembranças de todos que por aqui passaram. No Toriba, no que hoje é uma lojinha de souvenirs, era a sala de TV, onde assisti a chegada do homem à lua, em julho de 69. A televisão era mínima (comparada com as de hoje), em preto e branco, com uma imagem de péssima qualidade. Mas ali estávamos, fixados na tela, vendo o homem fazer algo impensável, pisar na lua. Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade, disse o comandante Neil Armstrong. Não sei o tamanho do passo, só sei que as imagens da chegada à lua e daquela noite de inverno no Toriba, passaram a fazer parte da minha história. Mas, nem só de momentos “‘épicos” se faz uma história de vida. No Toriba aprendi a jogar canastra ou baralho, achando muito estranho que se marcassem os pontos, em duas colunas: ELES e NÓS. Uma besteira, mas que ficou gravada na memória. No Toriba aprendi a jogar poquer de dados e, o mais importante, conseguia (e consigo até hoje!), puxar os dados da mesa para dentro do copo, com um movimento rápido, arrastando o copo até a beira da mesa e girando a mão. Não é nada, mas fazer isso com 15 ou 16 anos me dava uma sensação de competência e habilidade que me faziam sentir “mais velho”. Nessa idade, quem não gosta de se sentir “mais velho”!

Ao entrar no Toriba, depois de tantos anos, meu olhos se encheram de lágrimas. Sem um motivo específico, mas com todos os inespecíficos. Pude reencontrar tantas coisas exatamente como sempre estiveram e um turbilhão de lembranças me envolveu e eu me deixei levar. Logo na entrada, a placa com um poema de Guilhereme de Almeida que eu sei recitar de cor:

Quem vem lá? É de paz! Entra! À vontade! Sente o que a vida às vezes significa!Depois, parte, ficando… que a saudade é bênção de quem parte e de quem fica.

E assim, passei o meu dia da criança. Me emocionando, com memórias e lembranças. Nenhuma delas ligada a um objeto ou brinquedo. Todas, carregadas de emoção e afeto. Para que o post não fique sendo só uma crônica do passado, me ocorreu reforçar que os verdadeiros presentes que podemos dar aos nossos filhos não são aqueles comprados, mas os vividos juntos. Mais, há um ditado que diz: “recordar é viver”. Sugiro subverter o ditado: “viver é recordar, no futuro”. Portanto, vivam intensamente os momentos de lazer com seus filhos. Será um presente para hoje e amanhã. Hoje, produzindo a alegria que contribui para formar um adulto feliz. Amanhã, produzindo a emoção de poder perceber que essa alegria (de ser criança) continua viva!

Não há idade para descermos pelo escorrega da memória afetiva!

Toriba