Hoje, me ligou uma mãe de um bebê de 17 dias. Até o passeio matinal na praçinha tudo ia bem. Na praçinha, uma outra mãe, mais experiente, ao perceber que os olhinhos do bebê estivessem um pouco amarelos disse: você precisa ver isso logo. Vai precisar internar e fazer banho de luz. Um filho de uma vizinha minha morreu disso. Foi o suficiente para que esta mãe, até aqui tranquila e amorosa, ficasse insegura.

Essa história se repete de forma sistemática, mudando apenas os personagens e as doenças. O que existe de constante é que alguém com alguma pose de maior experiência, quer porque seja mais velha, tenha filhos mais velhos ou netos, faz uma afirmação categórica de perigo iminente. Cuidado com esse vento, o resfriado pode virar pneumonia! Está com roupa demais, pode ficar desidratado e você nem perceber. Geralmente essas afirmações vêm acompanhadas de um “fato real”. O vizinho, primo ou conhecido que passaram por um episódio gravíssimo e que o seu filho, que dorme um soninho delicioso, sem que você suspeitasse, corre o risco de passar por algo parecido. Instala-se a dúvida e esta corrói. Você chega em casa e consulta o Dr. Google. Para seu desespero, vai encontrar mais de uma referência assustadora.

Por quê existe essse terrorismo na praçinha? Francamente, não sei. Posso imaginar algumas hipóteses:

  • Interesse genuíno em ajudar- algumas pessoas são, naturalmente, apavoradas com os riscos que a vida nos impõe. Veem perigo em toda parte e acreditam que é o dever delas avisar a todos desses riscos.
  • Inveja- um sentimento humano que não pode ser explicitado abertamente. Algumas pessoas não suportam a ideia de verem outras felizes e contentes. De uma forma consciente ou inconsciente precisam acabar com a felicidade alheia.
  • Sentimento de exclusão- existem pessoas que querem e precisam se sentir úteis. Para estas, a independência ou autonomia dos outros é uma ameaça. Os riscos revelados por esta pessoa, bem como seus conselhos, podem torná-la importante ou fundamental.
  • Não reconhecimento do outro- é uma variação do sentimento de exclusão, sem ser exatamente a mesma coisa. Reconhecer o crescimento de alguém, sua independência, pode ser doloroso. Nesse caso, gerar insegurança, infantilizar através do medo irracional, é uma forma de “neutralizar” esse outro indpendente (e diferente).

Pouco importam os motivos que levam as pessoas a serem terroristas na praçinha. O que os pais precisam é criar mecanismos de “blindagem” contra essas ações. Algumas sugestões:

  1. Informação precisa- contra a dúvida de alguém “mais experiente”, nada melhor do que a informação correta, precisa. Esta pode vir de fontes confiáveis de livros ou da própria internet, como do seu pediatra ou de familiares que sejam carinhosos e acolhedores.
  2. Acreditar na sua própria capacidade- mães e pais podem e devem confiar mais nos seus sentimentos. Basta pensar que a humanidade chegou até aqui, vivendo milênios sem médicos e pediatras. Contava apenas com o sentimento intuitivo e a tradição familiar. Claro que houve enorme progresso em termos de saúde, mas o exemplo serve para nos lembrar de que somos capazes de tomar boas decisões baseados em nossos sentimentos. (Ver Mãe de Primeira Viagem e Um Bebê Chegou. O que o pai pode fazer?
  3. Estabelecer uma relação de confiança com o seu pediatra- os pais devem sentir confiança e acolhimento no seu pediatra para poderem consultá-lo sobre o que acharem necessário, sem medo de parecerem inseguros ou ridículos.
  4. Olhar para seu filho ou filha- toda vez que um terrorista de praçinha lhe contar uma história assustadora, olhe para seu bebê ou criança e se pergunte se algo parece estar errado. Não estou sugerindo que sempre tudo vai estar bem, nem que não possam existir situações que não se revelem de forma muito intensa ou clara. Apenas gostaria de devolver algum equilíbrio entre o que é ouvido (dito pelo terrorista) e o que vocês pais percebem.

Se tiverem histórias de terrorismo na praçinha que gostariam de compartilhar com outros pais e comigo, pode ser muito interessante. Quem sabe se conseguirmos rir um pouco dessas histórias, afastamos os fantasmas que os terroristas gostam de nos fazer crer que existem