Nas últimas três semanas, vivemos algo inusitado no Brasil. As ruas se encheram de pessoas que Manifestações-Populares-protestos-em-SP-destaquemanifestaram seu descontentamento com uma série de coisas que acontecem no nosso país. Não havia nada de novo nas coisas contra as quais surgiam cartazes, alguns bem humorados e criativos. Pelo contrário, tudo que era criticado já fazia parte do nosso cenário cotidiano, há tempos: corrupção, ineficiência e baixa qualidade dos serviços públicos, ausência de investimentos em educação, saúde, segurança e infraestrutura etc. A pergunta que não tem uma única resposta satisfatória é: se isso tudo já está aí há tanto tempo, fazendo parte do “jeito brasileiro de ser”, o que fez com que as pessoas fossem às ruas? Se não houve um “fato novo”, marcante, qual a motivação desse mar de gente, protestando?

Como pediatra, não possuo as ferramentas de um antropólogo, sociólogo ou psicólogo, para explicar o que quer que seja. Mas, não acho que isso deva ser motivo para me omitir de participar deste momento tão rico e intenso da nossa vida coletiva. Olho para esses acontecimentos e vejo uma cidadania adolescente. O bebê tem uma dependência absoluta de seus pais. Evolui para alguma autonomia de movimentação e querer, mas ainda é dependente dos pais que definem e decidem (não tem outro jeito), o que é melhor para seus filhos. Um dia, se olham no espelho e percebem mudanças no seu corpo. Um pelo que nasce aqui e outro ali. Junto com as espinhas, mais altura e massa muscular. E, na alma, uma sensação de onipotência vai se instalando. A formação de uma identidade própria passa pela crítica ao “status quo” familiar. Uns mais rebeldes, outros menos, todo adolescente confronta os valores dos pais e critica tudo e todos. Sabem identificar muito bem o que está errado, sem ter, ainda propostas de soluções. Ou, quando as têm, com frequência são românticas, idealizadas e inexequíveis. Imagine se alguém ousaria cobrar coerência e consistência de um adolescente!

O que percebo é algo metaforicamente semelhante. Minha geração viveu sob uma ditadura militar que nos fez passar por uma adolescência cívica tumultuada. Alguns se rebelaram de forma radical. Outros, foram rebeldes contidos e, talvez a grande maioria, passou “mansinha” por esse período. Medo é saudável quando se instala para preservar a vida. Muitos de nós éramos “mansinhos” por medo de sermos presos, torturados e mortos. Veio a democracia e toda uma nova geração não tinha um inimigo comum contra o qual se rebelar. Além disso, o mundo se tornou, gradualmente, mais egocêntrico e as agendas coletivas e de justiça social perderam parte do seu encanto. Cuidar de si, seja fisicamente, seja profissionalmente, passou a ser o mote. Mas, isso seria como uma criança que se movimenta, mas obedece a um padrão que não escolhido por ela. Repete o que os pais lhe dizem que é bom.

De repente, os hormônios cívicos começaram a circular. Essa geração sentiu o que todo adolescente sente: tédio, enfado, saco cheio e foi às ruas, gritar contra tudo, para conquistar sua identidade de cidadãos. Foram com a cara e a coragem que caracteriza a onipotência juvenil. E nós, olhamos para eles nas ruas e fazemos a pergunta que confirma nosso envelhecimento: onde é que isso vai parar?

manifNão vai parar. Não pode parar. É nessa movimentação juvenil que se oxigena um país. É dessa tensão que se rompe a inércia, dando lugar a algo novo, ainda desconhecido. É esse movimento sem muita forma que nos tira da zona de conforto improdutivo na qual nos colocamos e temos enorme dificuldade em sair. É essa cidadania adolescente que nos faz sentir vivos, criativos, renovando uma razão para estarmos nesse mundo. Se dependesse de nós, talvez chegasse à conclusão que “O Brasil não tem jeito, é assim mesmo”. É preciso um grito juvenil, de tempos em tempos, para que possamos, todos, sonharmos com um mundo melhor.

Este post foi originalmente publicado no blog http://4insiders.com.br/ onde sou um dos colaboradores.