Dia das Mães chegando, almoço de domingo sendo planejado, os desenhos feitos na escola ansiosamente guardados (eventualmente, já informados!), flores encomendadas, presentes comprados (o comércio adora o Dia das Mães!), artigos sobre a “nova” mãe prontos para publicação em jornais, colunistas preparando suas homenagens e este pediatra blogueiro não foge à regra!
Me ocorreu escrever sobre os elogios que criam mais problemas do que prazer. Como assim? Mãe é uma só! Só o coração de mãe para….! Ser mãe é padecer no paraíso! Fala com a sua mãe, ela resolve! Mãe, com que roupa eu vou? Mãe, não tem nada para comer nesta casa! Ele só fica calmo no colo da mãe! Vai lá você porque ela só quer a mãe! O repertório é interminável e vai desde tratados psi até frases em para-choques de caminhão. Com a quantidade de tarefas que cabem à mãe, só com muitos braços. Podemos suspeitar até de que mães são uma forma muito mais evoluída de polvos (deixando para os homens o parentesco com os macacos!). E é exatamente nesse mar de elogios que as mulheres correm o perigo de se afogarem, obrigadas que se sentem a cumprir multitarefas com perfeição.
Não há a menor dúvida quanto à importância da mãe em nossas vidas. É uma relação única, ímpar, inigualável. Nenhuma outra relação começa antes da existência visível e palpável. Nenhuma outra relação começa com a formação de uma pessoa, dentro da outra. Esta é uma relação que modifica, radicalmente, o corpo, a fisiologia e as emoções da mulher. Modificações que, na grande maioria das vezes, visam a acolher e cuidar do novo ser. Que outra relação produz leite? Apenas para dar um exemplo concreto e palpável. Ou, que nariz chuparíamos, se não fosse de nosso filho? Os exemplos do que essa relação tem de radicalmente diferente, no cotidiano, são incontáveis. Isso, sem falar na emoção sentida, também inédita e especial. Portanto, homenagear a mãe faz todo sentido.
Mas, se queremos realmente homenagear nossas mães, nós homens, filhas e filhos, precisamos ficar atentos à essa infinidade de tarefas delegadas a elas, no dia a dia. Temos que assumir tarefas, dividir atividades (bem diferente de ajudar em atividades), permitindo que nossas mães possam ser, também, mulheres com interesses e prazeres na vida que não sejam os de uma dedicação exclusiva em tempo integral à família. A família deve passar a ser uma co-responsabilidade de todos seus membros. Só assim cada um poderá ser um indívíduo pleno e, ao mesmo tempo, parte do coletivo que é a família. Deixar a tarefa de tocar o coletivo só para a mãe, enquanto cada um vai vivendo sua vida, é um ato de egoísmo que não pode ser resolvido com flores, presentes e um lindo cartão, uma vez por ano. Se o amor que sentimos é recíproco, está na hora de saírmos desse conforto individualista e arregaçarmos as mangas, dividindo o trabalho, todos os dias.
Proponho que ajudemos nossas mães a ter menos braços (dois seriam suficientes) e muito mais abraços.
Desejo a todas as mães que sejam felizes, todos os dias!