Hoje se comemora o dia das Mães. É uma festa para todos os gostos. O comércio celebra um Natal no meio do ano, com suas vendas impulsionadas pelos sentimentos que todos temos com relação às nossas mães. A imprensa publica depoimentos de filhos ilustres e anônimos. Textos são escritos, alguns de qualidade duvidosa apenas explorando a maternidade de forma piegas. Famílias se reunem em torno das mães, homenageando-as e cobrindo-as do merecido carinho e reconhecimento. Não raro, alguns almoços de família descambam para discussões e desentendimentos, o que os tornam mais reais e humanos. No final, salvam-se todos! Quem não tem mais mãe, dedica alguns momentos do dia para se lembrar dela, mantendo-a a viva com suas memórias e emoções. Uma festa para todos os gostos!

Como pediatra gostaria de homenagear as mães dizendo como as percebo. Quero homenagear a todas as mães falando de alguns aspectos que nem sempre são ditos, talvez porque não sejam tão valorizados quanto o amor e a dedicação que todas as mães têm por seus filhos. Mas, para mim, são características que tornam as mães seres muito especiais:

  • Solidão– a alegria da maternidade é algo compartilhado por todos ao redor da mãe. No entanto, é na solidão que a mulher se vê diante de suas dúvidas e inseguranças. A sociedade e a família, cobram da mulher uma postura de certezas e firmezas que não corresponde à realidade da maternidade. Pressionada, a mulher cala e vive, sozinha, suas aflições. Às vezes, o pediatra tem o privilégio de poder compartilhar alguns desses pensamentos e emoções solitárias.
  • Coragem– talvez não exista situação humana onde todo mundo tem alguma opinião, dica, sugestão a dar como a da maternidade. Todos querem opinar sobre o que é melhor para o bebê e para a mãe. Não raro, tratam a mãe como uma pessoa incapaz, necessitando do conhecimento de quem já passou pela experiência da maternidade, para sobreviver. Claro que a tradição oral, os valores sociais e familiares, o conhecimento adquirido pela experiência têm grande valor. No entanto, é preciso que a mãe tenha muita coragem para ser mãe do jeito dela, descobrindo com o seu bebê, o que fazer, como fazer, quando fazer. Escrever a sua própria história é um ato de coragem.
  • Emoções “erradas”– Mãe é amor. Isso, todo mundo sabe, propaga e divulga. Mas, mãe também é irritação, ódio, impaciência e descontrole. Essa mãe, humana e normal, é reprimida pela sociedade. Se compartilhar esses sentimentos e pensamentos ouvirá- que é isso, você está louca? Claro que não está e é para esta mãe que tem esses sentimentos conflitantes e contraditórios que eu rendo minha homenagem. Ouso dizer que essas são as mães que vivem no mundo real, por isso mesmo, menos confortável, mas onde poder ser, sem fingir, dá uma tranquilidade enorme.

A todas as mães gostaria de dizer que é um privilégio poder percebê-las nas sua plenitude, incluindo as contradições naturais e humanas.

Neste dia, recebem meu abraço carinhoso.