Jack-and-Barbossa-pirates-of-the-caribbean-30769540-500-334Pediatria invasiva? O que será isso? Procedimentos invasivos, cirurgia invasiva, são termos mais comuns e conhecidos. O que seria a pediatria invasiva, ao menos a que eu gostaria de comentar no post de hoje? Seria a pediatria que cuida de crianças graves e precisa fazer uso de procedimentos invasivos, necessários em cuidados intensivos? Esta é uma pediatria invasiva desejável, diante de uma situação crítica. O que eu gostaria de comentar hoje é sobre uma pediatria que invade um território que não lhe pertence e, ao fazê-lo, se coloca como sendo a legítima ocupante desse espaço, como se invasão sequer tivesse havido.

Falo da invasão da pediatria pelo território dos saberes da saúde e, principalmente, dos cuidados com as crianças. Claro que já escrevi sobre este tema, mas, como ele me é muito caro, retorno a ele. Retorno para, usando bom humor, chamar a atenção dos pais sobre a “eleição” de alguns como detendo um conhecimento especial, inacessível aos demais. Se elegermos o pediatra (ou outro profissional) como sendo detentor de um conhecimento que não temos, abrimos a fronteira para o invasor. Este, treinado para pensar a partir de uma lógica da doença, ocupa, sem se dar conta, esse espaço, julgando que é o legítimo “proprietário” do terreno.

Vamos simplificar a conversa? Toda vez que perguntarem algo para o seu pediatra, após ouvirem a resposta dada, complementem com outra pergunta: ” Dr. em que curso da faculdade de medicina lhe ensinaram isto? ” ou, ” em que publicação científica, leu isto? “. Vou dar alguns exemplos simples e frequentes de perguntas cujas respostas nós pediatras damos a partir de um saber de observar, tão bom quanto o de avós, pais e amigos que também já observaram crianças, mas que parece ser um conhecimento científico:

  • posso dar banho no bebê à noite?
  • quantos minutos devo esperar com o bebê no colo, até ele arrotar?
  • é melhor ventilador ou ar condicionado?
  • que alimentos eu posso introduzir, agora que meu filho tem 8 meses?
  • com que idade um bebê pode sair na rua?
  • meu filho está fazendo muito pirraça, o que posso fazer?
  • a que horas meu filho deve ir para cama dormir?

Poderia fazer uma lista realmente longa de perguntas que, frequentemente são feitas aos pediatras como se estes tivessem um conhecimento científico a respeito e pudessem dar respostas “certas”. Na origem dessa delegação de saber para o pediatra, identifico algumas causas.

A primeira é que o saber científico se tornou hegemônico. Isto é, temos praticamente como certo que se o conhecimento não vem da ciência, não tem valor. Ora, a ciência é algo que não tem mais do que 500 anos e o homo sapiens está na terra há cerca de 180 mil anos. Portanto, o conhecimento, não científico, acumulado ao longo desses milênios foi capaz de nos trazer até aqui. Sou defensor ferrenho do conhecimento científico, mas, é preciso reconhecer que nem tudo é ciência. Aliás, a própria ciência começa com uma curiosidade ingênua, não estruturada, não inserida em métodos. Mas, como nossa cultura passou a considerar este conhecimento (científico), como o único válido, o que vemos é uma proliferação de declarações baseadas em pseudo-ciência. Pseudo-ciência é a apresentação de um fato, recheado de números e estatísticas, como se isso fosse o método científico. Como poucos de nós está afeito ao que seja o rigor do método científico, bastam esses números e alguns gráficos, para validarmos o conhecimento como sendo científico. Resumindo e concluindo este ponto, o conhecimento científico (verdadeiro) é fundamental, mas não é o único que nos faz compreender e, principalmente, agir no mundo. É preciso resgatar o valor de outros saberes baseados na observação, experimentação pessoal e emoção. Se o único saber válido é o científico, olhamos para o pediatra como sendo o detentor ( não é), desse conhecimento especializado.

A segunda causa, talvez consequência da primeira, é que deixamos de ousar aprender. Ousar aprender significa se apropriar desse processo, questionando, criticando, experimentando, validando o conhecimento. Estamos imprensados entre a noção de que não sabemos nada (só quem tem conhecimento científico sabe) e um modo de aprender que é baseado no modelo escolar de fazer prova. Aprender para passar na prova e não para apreender o conhecimento! Se nos lembrarmos dos mais de 150 mil anos de conhecimentos acumulados, sem ciência e sem provas escolares, talvez nos sintamos encorajados a ousar um pouco e testar, do mesmo modo que nossos antepassados fizeram (e deu certo!).

A terceira causa, seria o custo da ousadia. Nos tornamos reféns de uma cultura de performance, eficiência, resultados. É preciso ser excelente em tudo que fazemos. Qualquer coisa menos do que isso é sinônimo de fracasso. Num contexto como esse, ousar e, certamente, errar algumas vezes, não é algo fácil de ser feito. Melhor delegarmos para “quem entende”, não nos arriscando à sensação de frustração (ou culpa) que um “erro” pode gerar em nós. Pais erram, sempre. Mas, dificilmente, erramos no essencial, fundamental. Portanto, a ousadia de aprender com nossos filhos como devemos cuidar deles, não os coloca em risco. Pelo contrário, lhes dá uma chance de serem tratados como únicos e não com uma receita “científica”, aplicada a todos, sem distinção.

Finalmente, uma quarta e última causa (ao menos para o post de hoje) seria um distanciamento afetivo ou o estabelecimento de relações com objetivos e metas. Afeto é a base do relacionamento humano. A razão ou racionalidade só nos fascina e encanta (é uma delícia ler ou ouvir uma pessoa inteligente ou brilhante) quando há afeto para formar o vínculo. Ora, o mundo da razão acabou nos convencendo de que afetos, emoções atrapalham mais do que ajudam. No entanto, não é preciso ser nenhum gênio para constatar que somos animais simbólicos, antes de sermos racionais. Olhamos para uma pessoa que não conhecemos e pensamos algo a seu respeito. Seja pelo sua roupa, postura, aspecto etc. Sem que nenhum contato racional com a pessoa tenha sido estabelecido, já formamos uma opinião, a partir dos símbolos que captamos e interpretamos. Poderia dar outros exemplos, como o de olharmos para um bebê e sentirmos algo, antes de pensarmos. A racionalidade, característica fundamental do ser humano não é melhor, nem pior do que a emotividade, também um atributo humano essencial. Mas, em um mundo onde racionalidade inibe o afeto, como desenvolver um aprendizado ou conhecimento baseado em emoções, sensações, experimentação sem “base científica”? Fica muito difícil e o mais fácil é “terceirizar” esse saber para quem identificamos como sendo dono de um conhecimento que não temos (mas poderíamos ter).

A síntese deste post poderia caber em uma frase. Pais, vocês sabem muito mais da saúde e cuidados dos filhos do que imaginam e podem aprender sempre, se forem ousados de criativos, sem medo de errar.

É isso, ou entregar o tesouro aos piratas!