Imagine algo que seja universal e natural, sem ser uma função de sobrevivência (respirar, comer, dormir etc.). Se essa atividade, que todo ser humano faz ou fez, existir, sem necessariamente precisar que lhe ensinem, deve ser algo muito importante nas nossas vidas e na história do desenvolvimento da nossa espécie. Se isso não é sério, o que será?
Todo ser humano saudável ou sem limitações extremas, brincou ou brinca! Ninguém precisou nos ensinar a brincar. É algo que começamos a fazer, espontaneamente. Certamente que, em algum momento, um adulto introduziu em nossas vidas, brincadeiras ou jogos organizados, com algumas regras. Mas quando bebês, ninguém nos ensinou como brincar, e brincamos! Portanto, o brincar é uma parte essencial da vida que permite o crescimento e o desenvolvimento de algumas aptidões humanas importantes. Se é parte essencial do crescimento, o brincar faz parte da saúde das crianças. Se isso não é sério, o que será?
No começo, é a mãe que brinca com o bebê. Ela usa um tom de voz especial, sorri ou muda sua expressão facial, se aproxima e se afasta do rosto da criança, pega no seu pé e balança, cheira, sopra na barriga, finge que desaparece e reaparece. Provoca no bebê pequeno um sorriso e à medida que este vai crescendo, surge uma certa agitação com os braços e pernas, acompanhado ou não de sons, que fazem a mãe brincar ainda mais. O bebê parece antecipar e, eventualmente, provocar a mãe para que esta repita um jogo estabelecido entre ambos. Nesta fase, o bebê está brincando também. Portanto, o brincar não é algo que começa somente quando a criança é maior e já se senta ou pega objetos, por exemplo. O brincar é uma atividade que pode ser identificada no bebê pequeno. Para adultos racionais (leia-se homens em geral), isso pode parecer uma peça de ficção. Mas, perguntemos às mães se elas não estão convencidas de que seus bebês brincam com elas? A grande maioria dirá que sim.
Certamente, o brincar fica mais evidente quando a criança já está um pouco maior. Talvez a primeira brincadeira que tenha alguma “sofisticação” seja a de jogar objetos no chão ou para longe, esperando que alguém (um adulto) o pegue de volta. Crianças adoram essa brincadeira de fazer sumir e reaparecer um objeto. É uma experiência mágica para a criança. Ela joga o objeto fora (no chão) e ele volta! Se os pais tiverem uma boa dose de paciência, essa brincadeira pode levar um bom tempo. Mas, ela é fundamental para o desenvolvimento do sentimento de confiança. Este sentimento é fundamental para a estruturação de uma identidade.
O brincar é importante para o desenvolvimento de atributos físicos, cognitivos (do pensamento racional) e emocionais das crianças. Ao brincar, as crianças desenvolvem, entre outros:
- cooperação e relacionamento em grupo
- capacidade de superar desafios
- capacidade de negociação
- tolerância à frustração
No entanto, a maior e mais importante consequência que o brincar produz é o desenvolvimento da criatividade. É através da criatividade que o brincar estimula que se constói a personalidade de uma pessoa. A criança, ao ser criativa brincando, está buscando entender o mundo que a rodeia e, mais importante, como ela vai viver nesse mundo. Não raro, a brincadeira é o melhor caminho que a criança tem para se adaptar a situações complexas e ameaçadoras, como a viagem de um dos pais, a chegada de um irmão ou os primeiros dias de creche ou escola. Assim, o brincar também permite que os pais percebam o mundo do ponto de vista de seus filhos. Ver uma criança brincar nos mostra como ela capta o mundo e como se insere neste. Nesse sentido, o brincar é, também, uma forma de comunicação. Ao brincar, nossos filhos nos contam histórias deliciosas ou nos revelam suas aflições e como estão lidando com elas.
Esse brincar que estou comentando é um “livre brincar”. Não é uma atividade programada, com um objetivo definido. O livre brincar é um momento em que a criança tem liberdade de ficar só. Ainda que adultos devam estar por perto, nem sempre devem estar dentro da brincadeira (em algumas sim, claro!). Tanto quanto o brincar, este estar só, acompanhado, é importante para a criança. A criança desenvolve segurança e auto-confiança quando sabe que a pessoa que ama está ali, mesmo que esquecida. Portanto, esse brincar não obedece à lógica de eficácia empresarial que os pais, muitas vezes, trazem para dentro de casa, ainda que de forma involuntária. Não é um brincar “profissionalizante” da infância, onde todo o tempo deve ser aproveitado para a criança fazer coisas “úteis”. Muitos pais comentam sobre a pré-escola: mas lá não ensinam nada, só brincam!. Como ensinar algo “útil”, antes de se desenvolver uma pessoa? Por isso, precisamos, ao menos para nossos filhos menores, subverter a lógica vigente e dizer: menino, vai brincar! depois você faz algo útil! 
Esse brincar, deve ser, preferncialmente, com “brinquedos verdadeiros”. Brinquedos verdadeiros é um nome fantasia, uma brincadeira, para aqueles que estimulam mais a criatividade da criança, como blocos, cubos, caixas, fitas, bonecos, carrinhos, baldes, massa, areia, “sucata” doméstica etc. Não é preciso um brinquedo caro, eletrônico, na moda, para estimular a criatividade da criança. Muitas vezes, os pais fazem um esforço para dar esse tipo de brinquedo e ficam frustrados ao ver a criança deixar o brinquedo de lado e brincar com a caixa, fita e o papel da embalagem!
A ideia deste post é estimular os pais a verem a livre brincadeira dos seus filhos, aquela espontanea e criativa, não como uma perda de tempo, mas como uma parte vital do desenvolvimento dos seus filho. E, sem brincadeira, adoraria que o post estimulasse os pais a brincarem mais, na vida. Brincar não é tudo na vida. Mas, uma vida sem brincar, não é nada!
Vou adorar receber comentários brincalhões, ou não!