Quando falamos em drogas, imediatmente nos vêm à mente aquelas ilegais. Como pais temos uma preocupação enorme, justificada, com o risco de nossos filhos se envolverem com essas drogas e, eventualmente, desenvolverem algum tipo de dependência química ou de comportamentos inadequados. Dentre estes, desinteresse ou apatia social, baixo rendimento ou abandono escolar, agressividade etc. Como pais, lemos e nos interessamos pelo tema, buscando, de diversas formas, manter abertos os canais de comunicação com nossos filhos. No entanto, me parece que a atenção que damos às drogas lícitas é bem menor do que a que é dada à maconha, cocaína, extasy, crack,LSD etc. Me refiro a duas grandes drogas lícitas: o cigarro e a bebida.
O cigarro, muitas vezes, sequer é identificado ou classificado como uma droga. No entanto, produz dependência química (vicia), potencialmente lesa o organismo de forma conhecida (câncer, enfisema, entre outras doenças) e apresenta síndrome de abstinência (a pessoa passa mal quando fica sem o cigarro). O cigarro tem todos os atributos para ser classificado como uma droga. Fora esses aspectos, o fumante tem uma perda na sua qualidade de vida por alterações no seu olfato, paladar e capacidade aeróbica. No entanto, para um adolescente, nenhuma dessas situações futuras constitui uma ameaça real. Uma das caracterísitcas da adolescência é a onipotência, que se expressa pela frase mágica: isso não vai acontecer comigo! É importante que os pais saibam argumentar não só baseado nas evidências a respeito dos malefícios do fumo, que pouco sensibliza os adolescentes, mas também reforçar a questão das opções, autonomia e independência. Autonomia e independência são valores muito desejados pelos adolescentes e falar sobre isso com eles pode torná-los mais abertos a ouvir e pensar a respeito dos seus atos. Provocar um adolescente na questão da sua capacidade de fazer escolhas pode surtir mais efeito do que falar sobre as chances de câncer, infarto e acidente vascular cerebral. O importante é que os pais não deixem de encarar a questão do cigarro com o mesmo rigor com que tratam outras drogas. Se os pais, ou um deles, é fumante, seria uma ótima oportunidade para mudar comportamentos, motivado pela bem estar dos filhos. Se isso não for possível, ao menos instituir alguma disciplina no seu hábito de fumar, como: nunca fumar dentro de casa, nem na janela, jamais dentro do carro ou em qualquer outro ambiente fechado. Fumar nesses lugares, comprovadamente traz consequências negativas para a saúde dos filhos.
Se o cigarro ainda recebe alguma atenção por parte dos pais, quando o assunto é bebida alcoólica, há muito menos rigor ou consenso. O que eu percebo hoje é que muitos pais são tolerantes com o uso de bebidas por parte de adolescentes. Mais do que tolerantes, fornecem a bebida para que os adolescentes a consumam. Não é raro que bebidas alcoólicas sejam servidas em festas de adolescentes. Pior, muitos adolescentes pressionam seus pais dizendo que, se não tiver bebida a festa vai micar e que ninguém vai. Os pais se veem entre frustrar o desejo dos filhos de festejar com os amigos e ser rígido com a proibição como relação ao consumo de bebidas. Qual é o pai ou mãe que não gosta de ver o filho ou a filha ser querido pelos colegas? Qual é o pai ou mãe que ficaria muito triste se o seu filho ou filha fosse discriminado, excluído, ridicularizado (uma forma de bullying)? Nesse contexto, não é incomum que os pais passem a desenvolver mecanismos de justificação. Nossa fábrica de argumentos mentais é extremamente produtiva e capaz de criar ideias como: afinal de contas, todo mundo está servindo bebidas, queremos que nosso filho seja diferente? Qual é o problema de um pouco de bebida? Eu falo com o barman e mando fazer caipirinhas bem fraquinhas! Melhor que bebam aqui em casa, com a gente por perto do que beber na rua! Francamente, o que muda quando fazem 18 anos? Será que ficam mais maduros da noite para o dia? Imagino que esses argumentos não sejam assim tão “fantasiosos”. Pois bem, a partir de argumentos tão “razoáveis” como esse, toleramos que os adolescentes consumam bebidas. Não vou usar o post para falar dos problemas que esse consumo precoce de álcool pode acarretar. Para provocar a nossa reflexão, vou sugerir o seguinte cenário: filho ou filha adolescente se aproxima dos pais e comenta que quer dar uma festa em casa. Em princípio parece uma boa ideia. A conversa evolui até que o filho adolescente diz- ah, tem mais uma coisa. Alguns amigos vão querer fumar maconha. Tudo bem? Qual seria a reação de vocês? Suponho que a grande maioria não teria nenhuma dificuldade em, de forma categórica e enérgica, proibir qualquer droga ilícita em casa. Isso se a negativa não vier acompanhada de algum tipo de exclamação como: ficou maluco? Pois bem, a pergunta que faço é- por quê os argumentos que foram usados para aceitar que fossem servidas bebidas não servem para que os adolescentes consumam outras drogas na festa? Imagino que a primeira resposta que darão seja- porque é proibido, ilegal. Meu ponto é exatamente esse. Do mesmo modo que drogas são proibidas, ilegais, o consumo de álcool por menores de 18 anos, também é. Não existe um gradiente de ilegalidade. Algo é legal ou não. Portanto, quando nossos filhos vierem nos pedir para dar uma festa e fizerem todo tipo de pressão para que sejam servidas bebidas alcoólicas, devemos ser rígidos, rigorosos, negando. A justificativa é uma só- é ilegal, sem precisar entrar em outros detalhes ou começar uma discussão inútil.
Para que possamos ser intransigentes com esse pedido, é preciso que tenhamos construído uma relação afetiva, amorosa, com nossos filhos. Isso se constrói com a nossa presença, desde quando os filhotes são pequenos. O ler e brincar juntos, o fazer refeições em família, o colocar limites e elogiar, constróem as bases para que possamos chegar na adolescência de nossos filhos com a tranquilidade de dizer não, absorvendo a raiva (normal, esperada) que sentirão. Dirão coisas horríveis a nosso respeito que não são fáceis de ouvir. Mas, o que está em jogo é algo muito maior do que um momento de raiva, é a vida saudável dos nossos filhos.
Este é um tema complexo e meu objetivo era o de chamar a atenção para o assunto. Não tenho respostas prontas para os diversos cenários e ficaria muito feliz se compartilhassem suas experiências e vivências. Se tiverem alguma dúvida, enviem que eu tentarei respondê-la.