bebê ansisosoComeço este post informando que não pretendo abordar o assunto da ansiedade em crianças seguindo nenhuma teoria psicológica ou psicanalítica. Existem vários autores e estudos, de excelente qualidade, que tratam do tema. O meu objetivo com o post de hoje e trazer o assunto à tona e abordá-lo de uma forma simples, objetiva, que nos faça pensar um pouco sobre o tema.

Meu interesse por abordar o assunto da ansiedade em crianças surgiu do relato de pais, a respeito do comportamento dos seus filhos, e das perguntas feitas. As situações poderiam ser as mais diversas, como por exemplo, um bebê que vinha dormindo muito bem e, de repente, passou a acordar à noite. Em geral, esse tipo de relato se dá com bebês em torno dos 8 ou 9 meses. Outros pais relatam que os filhos comiam muito bem, mas, de uns tempos para cá, “cismam” com determinados alimentos. Também ouço histórias de crianças que estavam adaptadas na creche e que, sem motivo aparente, passam a não querer ir, se agarrando na mãe aos prantos. Existem as crianças que roem as unhas, os que mentem, os que trazem objetos que não lhes pertencem para casa. Crianças podem acordar à noite morrendo de medo de ladrões, bruxas, dragões, a loura do espelho ou qualquer coisa! Algumas crianças não param quietas, outras parecem não querer fazer nada. Algumas são contestadoras, agressivas. Outras, ignoram seus pais, falando pouco ou nada. Tem criança que não gosta de estudar e tem as que apesar de estudar muito, tiram notas baixas. Algumas crianças apresentam sintomas ou queixas: dor de cabeça, dor de barriga, constipação, sem uma aparente causa que os explique.

Vejam que a lista de comportamentos é bem grande e está longe de conter a diversidade de comportamentos que crianças podem apresentar. O interessante é que, muito provavelmente, nada do que eu relatei acima será novidade para quem estiver lendo este post. Ou já viveu isso com seus filhos ou já ouviu histórias de familiares e amigos relatando coisas parecidas.

Claro que para cada situação, é preciso uma avaliação individualizada. Não é possível se criar fórmulas ou receitas prontas, nem se fazer um diagnóstico único para cada comportamento descrito acima. Apenas usei esses comportamentos para dizer que, uma das perguntas que precisamos fazer, quando estamos diante de uma mudança de comportamento, é- seu filho pode estar sentindo alguma ansiedade?

Esta pergunta, quase que invariavelmente, produz uma reação de surpresa nos pais. Ansiedade? Doutor, criança tem ansiedade? O que poderia produzir ansiedade em uma criança que tem tudo que precisa? É sobre esse espanto e perguntas que eu gostaria de fazer alguns comentários.

Esse espanto, em grande parte, vem do nosso entendimento do que seja ansiedade, do ponto de vista do adulto. Portanto, não é preciso escrever um post para dizer que crianças não possuem ansiedade com relação à manutenção do emprego, dinheiro, casamento ou relacionamento. Para nós, adultos, o mundo da criança é um sonho, onde todas suas necessidades são atendidas e elas não têm outra coisa a fazer na vida que não seja se divertir. Claro que as interrompemos para tomar banho, comer e ir dormir, mas, convenhamos, isso é pouco para produzir ansiedade. Portanto, na nossa visão de mundo, de fato, as crianças não teriam motivo para se sentirem ansiosas.

A questão é que não lembramos da visão de mundo que tínhamos quando éramos crianças nem temos acesso a ela agora que somos adultos. Só nos resta fazer um exercício de imaginação. Imaginemos que somos um bebê de 9 meses e estamos descobrindo que nossos pais desaparecem. Eles saem do quarto, saem da casa, somem do nosso campo visual. Em questão de segundos, nos vemos sozinhos e já temos essa consciência de que estamos sozinhos. Será que essa sensação de solidão, abandono, sem a certeza da volta do pai e da mãe, seria motivo para sentir ansiedade? Imagine-se adulto, em um aeroporto estrangeiro, onde o policial lhe pede para esperar em uma sala, sozinho e lhe diz, fique tranquilo, eu voltarei. E ele volta, não o libera, diz que só precisa de uma confirmação de algo e que vai voltar. Claro que, adultos, lógicos, racionais, não sentiremos nem um pouco de ansiedade. Ora, se ele disse que vai voltar, basta esperar. Pois bem, acho que todos nós ficaríamos muito ansiosos. O policial volta, diz que está tudo bem e nos deseja uma agradável estadia no seu país. Será um alívio, mas, já teremos passado por um momento de ansiedade (sem motivo, afinal de contas ele disse que voltaria e que só precisava fazer uma verificação!).

Imaginemos que temos 3 anos e vamos para a creche. Já aprendemos que nossa mãe ou pai nos deixa lá, desaparece, mas, alguém vai reaparecer para nos buscar. Entramos, brincamos, brincamos mais, lanchamos e nos buscam. Um dia, nos interessamos pelo brinquedo de um amigo e o pegamos. O amigo chora, a professora nos diz que é feio pegar o brinquedo do amigo e que devemos devolvê-lo. Ora, é feio pegar o brinquedo do amigo para alguém inserido na cultura, com valores de civilidade e cidadania, em uma palavra, educado. Mas, aos 3 anos, isso ainda não é compreensível. Um limite nos é imposto, sem que concordemos com ele. Como ainda não temos a noção do que é justo ou injusto, o sentimento que podemos ter é de desconforto, irritação. No dia seguinte a cena se repete. No outro dia idem. Essa tal de creche é um lugar que eu não quero mais ir e, no caminho, me agarro na minha mãe, desesperado com a possibilidade de ser, uma vez mais, frustrado.anxious-boy

Imaginemos que temos 9 anos. Somos grandes. Nossos pais nos falam coisas estranhas sobre ser adulto, ter responsabilidades. Nos falam que nossa única responsabilidade é estudar e tirar boas notas. Como se a nossa vida não tivesse outras responsabilidades como a de descobrir como tudo funciona, testar limites, brincar, se enturmar e, mais importante, ser reconhecido pelos amigos. Tanta coisa importantíssima para ser feita e ainda nos impõem a exigência de boas notas na escola, o que significa fazer deveres (uma perda de tempo total) e estudar (coisas sem a menor aplicação prática). Nesse cenário, vem o dia da prova. A figura dos pais preenche nosso imaginário e antecipamos a reação que terão, caso a nota seja baixa. Qual nosso sentimento, nesse momento? Relaxamento total, tranquilidade e serenidade ou, ansiedade?

Não vou deixá-los ansiosos com mais exemplos. Queria apenas mostrar que crianças possuem os seus motivos, para sentirem a sua ansiedade. Eles não entendem como podemos ficar ansiosos com os nossos motivos, porque não fazem o menor sentido para eles. O que me parece importante, sem ser nenhuma grande teoria, é que devemos aceitar que, só porque algo não faz sentido para nós, não significa que não possa fazer muito sentido para outros. Também deveríamos evitar procurar lógica onde o que está em cena é a emoção. Lembrem-se do exemplo de ficarmos em uma sala no aeroporto…. Ansiedade pode ter fatores desencadeantes e, geralmente, tem. Mas, não precisa ter lógica. Nossa vida não é exclusivamente lógica, nem a dos nossos filhos. Seres humanos, em qualquer idade, são simbólicos, afetivos e emotivos. A lógica se instala depois desses sentimentos. Estes sentimentos, em todos nós precedem e são mais profundos do que a racionalidade. Apesar da propaganda (enganosa) de que somos animais racionais!

Vejam que não abordei, a questão da ansiedade dos adultos e/ou do ambiente, como passível de ser percebido pelas crianças. Certamente percebem e são mobilizadas por nossas emoções. Muitas vezes, por ainda não terem desenvolvido plenamente uma capacidade crítica, se sentem (simbolicamente), responsáveis pelo que se passa conosco, gerando ansiedade nelas.

O que eu gostaria de propor com este post é que pensemos que nossos filhos tem motivos de sobra (os deles) para se sentirem ansiosos. Cabe a nós acolhê-los, aceitar e respeitar esses momentos, tentando minimizar os fatores desencadeadores e, principalmente contribuindo para que desenvolvam segurança e auto estima para enfrentarem as ansiedades que a vida sempre nos reserva. Não se trata de fazer todas as vontades dos filhos, nem tampouco de não impor limites ou ensinar a importância do convívio harmônico. Muitas manifestações de ansiedades podem ser exatamente porque os limites não estão sendo dados e a crianças se sente solta, sem amparo, insegura.

Só porque algo acontece no imaginário, irracional, não significa que não seja real. Ou, a imaginação não faz parte da realidade humana? Educar os filhos é percorrer esses caminhos menos retos, concretos, mais cheios de nuances, sutilezas e paradoxos. Os caminhos das certezas absolutas não são os da educação, mas os do adestramento. Nesse, as crianças terão que sentir suas ansiedades de forma solitária e reprimida. Lhes faltará o afeto acolhedor, que todos nós sabemos dar se ouvirmos mais nossos corações.