Um pediatra escrever sobre um arquiteto? Ainda por cima um arquiteto que faleceu aos 104 anos de idade? Realidades (arquitetura e velhice) muito distantes do universo habitual de um pediatra. Mas, não é qualquer arquiteto. Talvez o brasileiro de maior importância em termos de criação artística e reconhecimento mundial. Só por esse motivo, já mereceria a homenagem de todos nós. Mas, a vida de Oscar Niemeyer foi muito mais do que uma enorme produção de projetos arquitetônicos. Seu modo de viver e perceber o mundo são uma aula a ser apreendida. Nesse sentido, percebo Oscar Niemeyer como um pedagogo. Sem ter cátedra, sem a pompa das instituições universitárias, vivendo a vida como viveu, nos dá a oportunidade de pensarmos melhor a nossa e de nossos filhos.
Oscar Niemeyer era um humanista. Algo que nem sabemos bem o que signifique, tão mecanizado e cronometrado se encontra nosso modo de viver. Comentar que ele produziu, criou, até pouco tempo antes de morrer aos 104 anos, gera pouca ou nenhuma reação na grande maioria de nós. Como se fosse algo banal, chegar a essa idade, lúcido. Mais do que isso, produtivo. É algo que nos deveria fazer parar por uns minutos para tentarmos aprender algo com uma pessoa assim. Humanista é alguém que tem seu foco de vida no ser humano. Talvez não seja a definição erudita, mas é a que me parece mais adequada. O humano não é um intrumento para o mundo produtivo. Como humanista, valorizava a beleza porque entendia que era através da emoção que está provoca que se pode alcançar o próximo. Os gregos já pensavam assim, a ponto de criarem um ramo da filosofia chamado Estética. Hoje, não temos tempo para a filosofia. Tempo é dinheiro, diz o mantra equivocado. Tempo é o fio com que se tece uma vida. Oscar Niemeyer sintetizou da seguinte forma: a vida é um minuto! Sua lição foi a de nos fazer sentir, através das suas obras, a importância da emoção na vida cotidiana.
Niemeyer sonhou e ousou. Outra grande lição de vida! Não tolher a criatividade, não aceitar normas vigentes, desafiando até a verdade do concreto que, antes de Niemeyer, praticamente só conhecia a linha e ângulo reto. O concreto sinuoso, sensual, curvo, como o universo, é uma mudança de paradigma que somente uma mente irrequieta conseguiria produzir. Como disse Bernard Shaw: “O homem sensato se adapta ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a ele. Todo o progresso depende, portanto, do homem insensato.” Niemeyer, nesse sentido, foi um insensato.
Como cético, tudo que queria era aprender mais. Nos últimos doze anos da sua vida, toda terça-feira, se reunia com a sua equipe e um cosmólogo e filósofo, para discutir temas que iam desde a física quântica, passando pela filosofia e incluindo a literatura clássica grega. Num mundo de super especialização, ter a coragem de ser um generalista, é algo extraordinário. E nós, que não temos tempo para ler um livro, assistir uma conferência ou aprender algo novo? Vejam que o Niemeyer fazia essas reuniões de estudo sem parar de trabalhar e produzir! Não era um senhor aposentado que preenchia seu tempo com cursos. Era um ativo e demandado arquiteto que, separava um tempo para investir no conhecimento. E que começou este investimento aos 92 anos de idade!
Todos os amigos falam da sua generosidade. Valorizava seus relacionamentos a ponto de ter escrito: ” O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”. Também era uma pessoa humilde porque entendeu nossa dimensão no tempo e no espaço. “O homem está num planeta pequenininho, no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá uma ideia da precaridade do ser humano. Nasce, morre, como outro bicho, por isso deve ser mais modesto, ver a vida com paciência, sabendo que estamos no mesmo barco. O sujeito que que pensa que é importante, para mim, é um débil mental”
Se queremos que nossos filhos sejam adultos generosos, curiosos, produtivos, de sucesso e acima de tudo, felizes, talvez valha a pena pararmos um pouco e olharmos para a vida do Oscar Niemeyer. Certamente vamos aprender algo. Se vamos ter a coragem de aplicar o que aprendermos, é outra história!
Ficarei muito feliz em ouvir (ler) os comentários de vocês. Este é um post bem diferente e exprime opiniões pessoais, com as quais ninguém é obrigado a concordar.