Image (51) (2)Filhota,
Hoje, dia dos pais, fiquei pensando em o que eu gostaria de postar no blog. Primeiro, pensei em uma receita de pai. Pegar alguns ingredientes importantes e muitas vezes esquecidos no armário da cozinha da vida (afeto, ócio, escuta, contato físico, leitura conjunta, respeito à individualidade, reconhecimento de diferenças, limites) e misturar com outros (presentear, praticar esportes, viajar, ir ao cinema, comer sorvete), colocar tudo isso no forno do amor e tirar um pai maravilhoso, quentinho e prontinho para o dia de hoje! Pensei que seria um contrassenso para alguém como eu que vive dizendo para os pais olharem para seus filhos que são únicos, sem dar bola para regras gerais, escrever sobre um pai genérico, ideal! Além do mais, esse pai não existe.

Recentemente você me mostrou uma carta que eu lhe escrevi quando você tinha três anos. Era uma carta onde eu contava algumas das coisas que você fazia e, de forma bem contida, descrevia meus sentimentos com relação a você e à paternidade. Então eu resolvi, para comemorar o dia de hoje, lhe escrever uma nova carta, 23 anos mais tarde, falando sobre como tem sido ser seu pai. Pode ser que muitas coisas do que eu escreva façam sentido para outros pais, outras não. Pode ser que algumas coisas inspirem os pais, outras não. O mais importante é que todos os pais celebrem, ao seu modo, o dia de hoje. Essa foi a forma que escolhi.

Ser pai de um bebê não é das coisas mais fáceis do mundo. No início eu não tinha função nenhuma, ficava ali rondando sua mãe, para ver se sobrava alguma coisa para fazer. É uma sensação esquisita, mas real. Tinha sempre uma troca de fralda, um colo para você arrotar, empurrar o carrinho e coisas assim. Dessa fase, me lembro de ser um pai mais ousado do que a média, fazendo coisas que espantavam um pouco as pessoas. Com 5 dias de vida saímos para almoçar com você! Com menos de um mês, descobri que o melhor lugar para limpar o seu bumbum era no tanque da área. Como você nasceu em fevereiro, pleno verão, a água saía morna e era o lugar onde mais facilmente eu conseguia te limpar. Eu andava com você literalmente pendurada no meu ombro. Isto é, seus braços ficavam para trás, suas axilas encaixadas no ombro e eu andava sem segurar você! Era um espanto. Você teve, nessa época, um pai que era bem abusadinho com as “regras” de como se deve fazer isto ou aquilo.

Com o crescimento, começa uma interação deliciosa. Você sempre foi tagarela, curiosa e muito alegre. Cedo, começamos a andar de bicicleta (naquela época ainda sem capacete, coisa que jamais faria hoje!). E lá íamos nós pela orla com as pessoas gritando: olha o pescoço dela! É que você dormia e sua cabeça pendia para um lado ou para ou outro, para desespero dos pedestres! Depois, vem a fase da escola, com seus espetáculos de fim de ano. Ver você, mínima, declamando e dando uns pulinhos, me levou às lágrimas. E assim se inaugurou uma novidade na minha vida: chorar em espetáculos de encerramento de ano. Até na sua adolescência, naqueles intermináveis espetáculos de encerramento do ballet com 537 turmas (e você, invariavelmente era uma das últimas), lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Faço aqui parêntese e um registro para algum pai que esteja lendo este post. Valeu a pena estar presente em cada um desses momentos, como valeu aImage (54) (2)pena ter ido à maioria das reuniões de pais, na escola, independentemente do horário. Não só pelo lado objetivo de saber o que estava acontecendo, do progresso da filha, mas, principalmente, pela emoção que gerava em mim. Não me pergunte porque gerava emoção. Emoção, por definição, não é racional! Só sei que ouvir de uma professora um relato sobra a minha filha, produzia em mim uma emoção deliciosa. Por isso recomendo fortemente a todos os pais que se esforcem por comparecer no máximo que puderem. De brinde, ganham uma emoção!

Me lembro que dentre as minhas preocupações de pai estava a de que eu queria muito que você fosse uma pessoa analítica e crítica. Tínhamos conversas curiosas, com você pequena. Destas, nasceu um mote ou mantra: paciência e criatividade, nessa ordem! Foi uma fórmula que surgiu de conversas sobre problemas que enfrentávamos (você tinha uns 5 anos!) e concluímos que se tivéssemos paciência e criatividade, poderíamos resolver muitas coisas. Um dia, viajando, você me disse algo como: quando as pessoas morrem paciência e criatividade não resolvem. Eu fiquei quieto, sem saber o que dizer. Aí você emendou- resolve sim, é só dizer que a pessoa virou uma estrela! Certamente você tinha ouvido isso de alguém, em algum momento, mas, juntou com o nosso mantra e, para aquele momento, resolveu a angústia da finitude humana! Um segundo mantra, mais ou menos da mesma época, foi: quem disse que a vida é justa? Isso surgiu porque, parte dos seus argumentos era: mas isso não é justo! Quase sempre invocado por você quando lhe dávamos um limite ou negávamos algo que queria.

Outra preocupação da sua mãe e minha é que fosse independente. Ambos temos a independência,liberdade e autonomia como valores fundamentais e sempre pensamos em como te dar as condições para ser assim. Ler, foi um dos caminhos. Na leitura encontramos não só o estímulo para o pensamento, como intermináveis situações humanas. Seus pais gostam de ler e sequer tinham um aparelho de TV na casa, quando você nasceu! Você não teve muita opção e se tornou uma leitora desde pequena. Um dos nossos programas era ir na Malasartes, no Shopping da Gávea ler e comprar livros. Lá, D. Yaci, com a sua interminável paciência, nos orientava. Outro caminho para lhe ajudar a construir sua autonomia foi deixar que fizesse coisas sozinha, cedo. Você ia em festa de criança, sem babá ou adulto que ficasse com você. Te deixávamos e perguntávamos a que horas era para pegar. Isso me rendeu o rótulo de um pai descuidado que abandona a filha em festas! Também permitimos que viajasse sozinha, cedo. Aos 7 anos você você foi para uma colônia de férias, no Canadá, acompanhada por seus responsáveis primos de 12 ou 13 anos! Aos 15 anos, passou 6 meses na França, morando na casa de uma família. Um outro caminho foi a escolha da sua escola. Queríamos que você pudesse ser, se quisesse, uma cidadã de qualquer lugar do mundo, não só do Brasil. Mas, na minha opinião, o que mais contou e conta no desenvolvimento da sua autonomia e independência foi o modelo ou exemplo da sua mãe.

Outro momento marcante foi o seu ingresso na universidade. Você foi aceita para Yale, uma das melhores universidades americanas.Na sua”formatura” do segundo grau, fui surpreendido com a notícia de que você tinha sido a melhor aluna da escola. Foram momentos de grande alegria e emoção. Algo que, na cabeça de um pai funciona mais ou menos assim: o mundo é duro e é preciso ter aptidões para sobreviver bem. Boa performance escolar não garante isso, mas, pode ajudar. Dá um certo alívio ver um filho progredir no mundo acadêmico. Seus 4 anos na universidade como que fecharam um ciclo de querer que fosse independente, autônoma, livre, cidadã do mundo. Acho que sentimos algo como se uma das missões dos pais estivesse cumprida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Até aqui, fiz uma crônica, curtíssima, desses meus 26 anos de ser seu pai. Quero te contar um pouco da emoção que isso representa para mim. Primeiro, quero te dizer que nem sempre fui o pai que eu gostaria ou idealizei e imagino que não fui o que você queria ou precisava,em todos os momentos. Mas, também acredito que, take or give, o saldo é positivo! Dito isso, a maior revelação que você me traz é com o sentimento do amor. É algo inédito, diferente, único e indescritível. É um amor especial, não digo incondicional, mas, diferente de tudo. Um sentimento delicioso de ligação com alguém. Te amar, além de delicioso, mexe comigo. Como sabe, sou duro na queda para afetos. Sou um racional convicto que briga com suas emoções. Você sempre teve a capacidade de burlar todos meus mecanismos de proteção. Sei que você ainda reclama, achando que sou pouco afetivo, mas, da minha perspectiva, que progresso! Junto com o amor ou como parte dele, a imposição de aceitar as diferenças. Digo imposição porque, ao menos para mim, nem sempre é fácil admitir que a minha filha pense assim ou assado. Como pode? Mas, como a tela é feita de amor, a pintura pode aparecer e, nesta, percebo, olho, brigo e aprendo a respeitar diferenças. Outra emoção que você sempre despertou em mim foi a de sentir orgulho. Ver você ser você, sempre me deixou muito orgulhoso. Isso, eu tenho a certeza absoluta que eu sempre te disse! Tenho um orgulho enorme em ser seu pai.

Como a vida segue, estou sentindo novas e deliciosas emoções com você e Sylvio morando juntos. Me pego pensando carinhosamente nos dois, querendo muito que sejam felizes e que se divirtam na vida, juntos. Até consigo ver que, nesses 26 anos você fez o seu trabalho de educar seu pai, direitinho. Não ligo muito, não vou na sua casa sem convite, estou quieto no meu canto e sei que você sabe que pode contar comigo, sempre. Me sinto feliz nessa posição de espectador de um casal se formando. É como um bastão que é passado e cabe a vocês seguir o destino darwiniano que temos (sem pressa, por favor!). Haverá um dia em que escreverão para um filho e, talvez, dirão algo como- quando eu tinha sua idade, seu avô me escreveu…

O post está longo e eu poderia continuar e continuar. Mas, preciso me lembrar que escrevo em um blog, público e que, ao menos em princípio, devo tratar de algo que seja do interesse de todos. Para os pais que celebram o dia de hoje, a única mensagem que eu tenho a dar, depois desta carta para a minha filha é: pelo menos hoje, deixem de ser racionais e se entreguem à emoção! Se isso significar rolar no chão agarrado a um bebê, ótimo. Se for colocar no colo um filho e uma filha e, silenciosamente, ficar abraçados, ótimo. Se for deitar no colo de uma filha ou filho e deixar que um cafuné seja feito, ótimo. Hoje é o dia da emoção irracional. Hoje é como um carnaval ao contrário. Hoje é dia de rasgar a fantasia, mostrar quem somos e cairmos na folia!

Bom dia amoroso dos pais para todos!

Obrigado filhota por me fazer mais amoroso!