Quem acompanha o blog sabe que, muito raramente, emito uma opinião enfática. O que eu mais digo por aqui é que não há regra.
Pois bem, para provocar um pouco, vou responder à pergunta deste post com uma frase curta: TV faz mal para crianças sim!
Agora, vou tentar explicar minha afirmação. Um primeiro argumento é o de que se não houvesse TV, as crianças não perderiam absolutamente nada em termos de desenvolvimento e conhecimento.Para os que defendem a tese de que a TV veicula muita informação útil ou interessante (o que é verdade), eu perguntaria- quantas crianças efetivamente assistem a esses programas culturais e informativos? Talvez algumas, mas a grande maioria está ligada em desenhos e clips. Voltaremos a esse assunto mais adiante no post.
Como a idade com que as crianças começam a assistir televisão é cada vez menor, muita pesquisa científica já foi feita a esse respeito, levantando os seguintes pontos:
- assistir muitas horas de TV contribui para o sobrepeso e obesidade das crianças e adolescentes;
- assistir programas com conteúdo sexual pode contribuir para a prática de sexo em idade mais precoce;
- assistir programas com conteúdo violento pode contribuir para o desenvolvimento de comportamento agressivo, incluindo bullying;
A recomendação é de que as crianças assistam, no máximo, entre 1 e 2 horas de TV, por dia. Hoje, em média, a estimativa é de que crianças menores de 11 anos estejam assistindo em torno de 3 horas por dia e na adolescência esse número aumenta. Precisamos contar nessas horas o tempo em smartphones, tablets e computadores. Não é só tempo de TV que conta porque as crianças assistem a programações em outras mídias. O que conta é o tempo em frente de uma tela. Qualquer tela. Mas, seria insano esperar que as pessoas assistam menos TV só porque as pesquisas mostram essas consequências indesejadas que podem ocorrer. Não é realista pedir que se reduza o número de horas na frente de uma tela. Não podendo diminuir esse número, a escolha do conteúdo passa a ser fundamental. Crianças tendem a imitar ou incorporar comportamentos em função do que assistem nas telas. Como a idade em que começam a assistir TV ou telas é cada vez menor, as repercussões podem ser mais sérias. Muitas vezes, o comportamento indesejado como o de agressividade não se manifesta imediatamente, mas algum tempo depois. Por isso é muito importante que os pais, desde cedo, escolham aqueles programas que, de fato, sejam adequados, veiculando informação e diversão, de forma apropriada para a idade da criança.
Em várias casas a TV funciona como uma babá eletrônica. É ligar e deixar a criança hipnotizada, permitindo que os adultos façam o que precisa ser feito ou simplesmente tenham um pouco de sossego. Já que não dá para eliminar a TV, precisamos prestar mais atenção ao conteúdo. Os programas para adultos, contendo cenas de violência ou de sexo, são inadequados para crianças e deveriam ser proibidos para estas. Cabe aos adultos a escolha dos programas que seus filhos poderão assistir e não devem temer colocar limites claros do que pode e do que não pode ser visto.
Programas com clips ou desenhos “frenéticos”, com mudanças de cenas muito rápidas, geralmente acompanhados de sons que realçam a velocidade com que tudo está acontecendo, produzem um super estímulo no cérebro das crianças. Este se acostuma com esse nível elevado de hiper estímulos (crash-pow-zapt-tchan) e, quando não os recebe, perde o interesse pelo que está acontecendo. É como se o mundo, na velocidade normal, não tivesse graça alguma. Isso pode explicar a desatenção, falta de capacidade de concentração e desinteresse de muitas crianças, na fase escolar, onde as coisas andam bem mais devagar! Pior, muitas poderão ser rotuladas como tendo algum distúrbio de deficit de atenção ou hiperatividade e serem medicadas, sem necessidade.
A mensagem das pesquisas recentes é muito clara: se o cérebro for super estimulado, vai achar chato e desinteressante a maioria das coisas que acontecem na velocidade real e humana da vida. Ficar sentado à mesa para conversar com pais e irmãos será um martírio e tudo o que interessa é comer rápido para sair da mesa e ir assistir a alguma coisa agitada! As consequências dessa exposição a um frenesi de imagens e sons vão desde a dificuldade de aprendizado, até comportamentos irritadiços ou agressivos.
Ler e brincar continuam sendo as atividades que estimulam de forma mais produtiva o desenvolvimento das crianças. Mas, como a TV e outras telas fazem parte das nossas vidas, vamos escolher conteúdos que não sejam alucinadamente estimulantes. Vamos escolher programas que se passam na velocidade da vida fora das telas e que transmitam valores e comportamentos adequados ao convívio em coletividade ou sociedade.
Para encerrar este post que começou com uma provocação, lanço um desafio: que tal desligar a TV e demais telas, meia hora por dia, para ler, brincar ou simplesmente conversar com os filhos?